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CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

O céu nem tinha sido atravessado pela luz, tampouco seus pensamentos pela esperança. A água escorreu. Infelizmente, por sua lombar e não pelo canto de seus olhos. Suor intenso. O calor abrasivo e sua dor lancinante eram os grandes anfitriões daquele fim de madrugada. Seria mais uma madrugada, não fossem quatro dedos da mão esquerda quebrados — anelar, médio, indicador e mínimo — após um enfrentamento que ele tentava não se lembrar. Assim como as horas falhavam em passar, e o sol tardava como se o tempo se perdesse em suas próprias unidades, Ekko não conseguia afastar a dor que pairava obcecada sob seu corpo e seus pensamentos.

 

Cada nova imagem formada quando fechava os olhos era um cervo indefeso a ser caçado e abatido por corvos famintos que mergulhavam do céu. Seu problema não eram os leões habituais que lhe traziam insônias acompanhadas de refluxo e pulos repentinos da cama, e sim os animais obscuros que vinham de um céu noturno e sem estrelas. Animais noturnos que invadiam até mesmo suas menores ansiedades, sorvendo-as como alimento para criar grandes ansiedades e grandes novos medos. Animais tão sombrios que ele sempre se perguntava de onde dentro dele teriam origem. Contudo, por mais que ele tentasse sacudir a cabeça, ele não podia alterar a realidade. Ou melhor, ele poderia tentar alterar o tempo, mas ele mesmo sabia o preço a se pagar para reverter sua última e mais violenta ação. Um preço maior do que dedos quebrados.

 

O que acontecera naquela mesma noite era o que mais lhe doía. Rangia os dentes, sentia seu estômago revirar completamente. Por diversas vezes, Ekko chegou a se levantar da cama e pegar uma lata de ferro que dispôs ao lado de sua cama. Sentava, tonto, envolto em névoas de náusea, querendo que aquilo saísse de seu sistema. Não era nenhuma substância venenosa, mas agia como veneno. Atendiam por desespero, medo, arrependimento e a pior de todas: culpa. Às vezes sentia, por um ínfimo sopro de segundo, como se fosse colocar tudo para fora. No entanto, tão logo abria a boca e expunha sua língua para fora dela, sentia escorrer apenas um fio aquoso que parecia vir de algum lugar direto de suas entranhas rasgando sua garganta. Gosto de fel com tempero de terror.

 

Nesses momentos ele pensava em gritar. Ou chorar. Todavia, eram tantos os pensamentos sendo caçados que assim que tinha esses eles já perdiam seu poder de virarem ação. Era como se qualquer chance de fugir de si mesmo fosse instantaneamente ceifada e transformada em uma nova prisão. Não bastava ser perseguido por animais noturnos e famintos, ele também estava afundando em um pântano sórdido e asqueiroso de suas próprias tentativas falhas de se salvar. Sua última tentativa foi de chorar, mas em vez disso engoliu apenas alguma coisa seca. Talvez ar, talvez mais culpa. Então olhou para a própria cama em que passara as últimas eternas horas e percebeu que além de suor depositado nos lençóis também havia uma poça seca em forma de lua. Aquilo era sangue. Aquela lua era sangrenta.

 

A maioria das pessoas pensa que o sangue é vermelho. Aquele sangue, para ele, era negro. Com vislumbres escarlates. Embora o pior não fosse ter sangue em sua cama, mas de quem era o sangue que estava em sua cama. Só Ekko sabia. As marés estava altas e barulhentas e aquela lua as regia. Conseguia ouvir algumas palavras sendo cuspidas dentro da boca de seu estômago e sendo corroídas por ácido. Em alguns rompantes de enforia, fechava ainda mais a mão esquerda e cerrava totalmente as pálpebras para se punir com uma escalada vertiginosa de dor. Mais dor. Ao menos a dor física era mais suportável do que aquela que sentia em seu coração. Um coração acidulado. Massacrado por todas as outras partes de seu corpo que o tinham como seu algoz. Pois por mais que seus membros superiores tenham feito aquela barbárie inesperada, fora tudo a mando de seus sentimentos. Ou melhor, a mando do mais monstruoso tipo de... amor.

 

Ao vasculhar no perímetro da escuridão de seu quarto, Ekko deparou-se com outro fragmento daquela mesma noite que ele preferia não ter o desprazer de se lembrar: seu bastão-espada. Ali ao canto em toda a sua construção Hextec de magnitude. Em toda sua coalizão com os propósitos de Zaun. Um artefato híbrido criado por ele mesmo para estilhaçar o tempo e infligir dano e ordem. Quem poderia advinhar que ela seria a mesma arma que... a mesma arma que... Ele não conseguia concluir. Se concluísse, traria os corvos ao seu quarto e rasgariam seu corpo com a mesma proeminência que rasgavam o material amorfo de seus pensamentos.

 

O martírio o deixava emaranhado em soluções divergentes que vinham das profundezas de suas loucuras e estouravam no céu de sua lógica agora abalada. Queria se levantar, mas ficava em uma alternância repetitiva entre sentar e deitar ao lado daquele sangue. Seu corpo já estava totalmente seco, nem uma gota de suor escorria mais. Sua mão jazia inerte, mas ele continuava seu ritual de fechá-la com todo o propósito de se autopunir. Esvaído de fé, ele intercalava seus olhos entre o teto de pedras, iluminado por  um singular feixe de luz que atravessava uma quase imperceptível fresta acima da porta do cômodo, e o próprio vazio do espaço ao seu redor. A única janela que havia estava emperrada e trancava todos os odores e líquidos condensados no teto do próprio quarto.

 

Sua mente era sua prisão, entretanto havia outra. Ele não tinha certeza da região em que estava. Afinal, depois do que acontecera, ele fora apagado por um gigante colosso muito preparado para se defender de sua magia. E havia sido jogado ali. Para remoer suas próprias lembranças e elevar sua própria culpa e empurrar a si mesmo para longe da luz e para o abismo da escuridão. Ele olhava para o abismo e o abismo olhava para ele de volta. Seu corpo ferido, aquela lua de sangue já seca e marcada como um brasão em seus lençóis, sua arma-dispositivo em um canto, desativada com uma pedra que absorve mágica e, não só isso, o que ele menos queria ter coragem de olhar ou admitir relação: ao lado de sua cama, ao lado da lata de ferro que seus captores haviam deixado com ele, estava uma um corpo desfigurado. Quiseram deixar ali, ele não entendera. Quiseram deixar ao lado dele e talvez fosse por isso que ele nunca saía da cama.

 

O corpo dela... Ele não queria ver o corpo dela... Com seus cabelos sujos com o mesmo sangue negro. Com seus olhos que pareciam ter sido comidos por corvos. Com sua roupa ensopada com água, suja de lama e seu anterior tecido azulado agora tão podre e turvo como a ânsia de vômito que lhe subia a garganta, mas que não saía pela boca. Ainda voltariam por ele, tão cedo amanhacesse e o a luz rompesse a membrana de sua dor para lhe fazer arder em mais dor. Sim, ele tinha culpa. Como poderia não ter? Se ele não tivesse a encontrado. Ou melhor, se ela não tivesse o encontrado. Lugar errado na hora errada. Justo ele, que deveria como ninguém saber brandir e manipular o tempo.

 

— Me... Me desculpe... — Vociferou Ekko por entre ondas baixas de som inaudível.

 

O corpo da jovem permaneceu inerte.

 

Nenhum som ecoou de volta.

 

***

CONTINUA.

14 RESPOSTAS

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

Vowlvowl do fórum arrasando e pisando nas inimigas! <33 Estou lendo aqui, tá muito bom.

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

@Divine LeBlanc

Muito obrigado!
Tropa

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

Muito bom.

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

Favoritei lerei.
https://twitter.com/wahregesicht

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

Excelente Conto, adorei a narrativa que você uso! Precisamos incentivar mais conteúdos como esse no fórum. Adorei!
"Eu serei o seu escudo."

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

@BlackerKurokami

Você é um amor. Que bom que gostou!
Dragão

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

Adorei.
"Temam. Adorem. Maravilhem-se. Todas são respostas apropriadas" - Aurelião que sou, século 2k16
Ah, e já tomaram seu café hoje?

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

@Chokkus

Deixa o like para mais pessoas verem, amiga!
Dragão

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

Já deixei o like, miga.
Escreve muito bem, meus parabéns!
"Temam. Adorem. Maravilhem-se. Todas são respostas apropriadas" - Aurelião que sou, século 2k16
Ah, e já tomaram seu café hoje?

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

@Mamei o Ookina

 

"Eu serei o seu escudo."

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

@Chokkus

 

Te adoro!

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

@Mamei o Ookina

Sem palavras <3
- A dama cinzenta
Aronguejo

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

Meus parabéns, ótimo conto e a forma como narrou é encantadora, gosto quando o autor foca em tornar os medos do personagem em figuras simbólicas, isso gera uma sensação mítica impressionante e eu já quero essa continuação hein?
"Humanos não passam de imitação de macacos, deuses não passam de imitações de humanos." - Sousuke, Aizen.

Re: CORAÇÃO ACIDULADO | UM CONTO (PARTE 1)

@Overcurse

A parte 2 sai na sexta-feira! <3